Ainda sobre o fim do ThinkSecret, jornalismo e afins

Nos últimos dias tenho-me preocupado com as implicações do acordo entre Apple e Nick Ciarelli que levaram ao fim do blog de rumores ThinkSecret.Dando de barato a necessidade da empresa em proteger os seus segredos comerciais a forma como, por vezes, o faz deixa-me pensativo. Ora, a Apple não teve pejo em processar judicialmente um adolescente que, sozinho e desde casa, conseguiu fazer com bastante sucesso o que nenhum jornalista encartado foi capaz: ir tornando públicos os planos da Apple.Claro que bastaria à Apple largar o secretismo que a caracteriza e, tal como a Intel, que em tempos não muito longínquos sofria do mesmo mal, passar a aceitar discutir publicamente os seus projectos. Mas se nem nos updates de segurança se dão ao trabalho de explicar convenientemente as alterações , quanto mais no que toca ao filet mignon… Por outro lado, pena é que não haja mais jornalistas com a coragem (loucura?) do Nick e os recursos para irem escavar histórias em Cupertino. Não, a maioria limita-se a repetir à exaustão os soundbytes que lhes são enfiados garganta abaixo, qual ganso a ser alimentado à força para dar um belo patê. Um bom exemplo vê-se, num cenário diferente, no recente (e fraquinho) filme Lions for Lambs, em que a jornalista Meryl Streep acaba por publicar uma notícia conforme lhe foi sugerido pelo congressista Tom Cruise.Não sou um admirador confesso do jornalismo actual, pois acho-o demasiado contaminado, dócil ou de outra forma influenciado, pelos interesses que gravitam à sua volta, de quem necessita que uma determinada versão da história seja a oficial ou, no mínimo, a pública. Desde já peço desculpas aos meus amigos jornalistas, mas eles conhecem de ginjeira a minha opinião. Daí que não me espante a relativa ausência de novidades sumarentas quanto à Apple vindas do jornalismo tradicional, excepto (assim que me lembre de memória) a transição para Intel e o fresquinho rumor do acordo entre Apple e Fox para o aluguer de filmes. Tudo o resto vem de ilustres desconhecidos, que, em princípio, não teriam acesso directo à Apple. Estranho? Mal vai o caso quando, em relação à Apple, os jornais e revistas se limitam a uma de duas coisas: (1) repetir press releases da própria; (2) servir de correia de transmissão para o trabalho de investigação de alguém (já nem falo em se darem ao trabalho de identificar a fonte, deve ser difícil e dava um bom sketch dos GF). E mesmo os blogguers não se salvam, como se viu no Macalope, bem mais suave desde que se mudou para a c|net. Ou o FakeSteve, que perdeu metade do veneno após ver divulgada a sua identidade.Resumindo, a lição que retiro da transacção ThinkSecret-Apple (bem assim como os sucessivos comentários mordazes do FakeSteve quanto ao tema) é que mais vale prevenir que remediar. Tendo em conta que algumas das minhas fontes estão, como dizem os ingleses, within striking distance do longo braço do departamento jurídico da Apple, terei especial cuidado em evitar tornar público qualquer detalhes que lhes possa trazer problemas a eles e, obviamente, a mim.  Terminando, não censuro o autor do ThinkSecret pela opção tomada. Safou-se de um processo eventualmente longo e sujo, obteve um bom acordo (urge frisar a máxima jurídica, mais vale um mau acordo que uma boa demanda) e, tendo em conta o seu futuro como jornalista, não se queimou para o resto da vida. (Boas análises sobre o fim do ThinkSecret no Apple 2.0 e também no Cult of Mac

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2 comentários em “Ainda sobre o fim do ThinkSecret, jornalismo e afins”


  1. Pedro… Todos os jornalistas que têm acesso ao juicy stuff da Apple vêem-se obrigados a assinar acordos de confidencialidade com a mesma, logo não podem divulgar essas juicy stuffs… Esse problema não se verifica com o mundo aparentemente “irreal” da net, em que qualquer rumor dificilmente consegue ser seguido até à fonte, sendo por isso mais fácil “botar a boca no trombone” e esperar pelas consequências… que neste caso foram visíveis… em muitos outros blogs, provavelmente não.

    É como tu dizes… se tu vais proteger as tuas fontes, que dirão os jornais que têm uma marca e muitos interesses a defender… quanto mais não seja os seus proprios postos de trabalho!

    Quanto ao secretismo da Apple… sinceramente não me chateia. confere uma aurea de previsibilidade imprevisível que só a marca consegue gerir… quantas vezes já nos sentimos desapontados por expectativas goradas depois de uma keynote? quantos de nós já deixámos de gostar da marca e seus produtos depois disso?

    acho que é um feeling que nos prende ao ecrã em cada actualização em cada “store is down dfor maintenaince”… é o tal feeling de “one more thing”

  2. Pedro Says:

    Tiro-te o chapéu por teres conseguido ler o post. Merda para o Safari e o WordPress que me lixaram a formatação!

    Quanto aos jornalistas. Se fossem sempre tão dóceis não haveria jornalismo de investigação, como se vê em algumas boas peças actuais da Newsweek ou da Time. E não deixam de proteger as suas fontes, muitas vezes colocadas em posições muito periclitantes nos serviços secretos, FBI ou dentro da Casa Branca. Sem jornalismo de investigação não teríamos tido o Watergate, por exemplo. E acredita que teria mais medo do Governo dos EUA do que da administração da Apple. Mas no que toca a esta, a realidade é que só aparecem essencialmente as notícias que esta quer. (Lembrei-me agora de outras excepções, a campanha green my apple e a entrevista do Channel 4 ao CFO da Apple aquando do lançamento do iPhone em Inglaterra)

    Mas hoje em dia há menos jornalismo assim, a verdade é essa. Até o Murdoch conseguiu comprar o Wall Street Journal!

    Não é por se publicarem as notícias que os jornalistas deixam de conseguir proteger as suas fontes.


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