O triste faduncho nacional

O meu post sobre a qualidade de serviço da Interlog originou uma discussão interessante nos comentários. Aliás, como a generalidade dos meus posts sobre o tema, verdadeiros campeões de bilheteira aqui do SpB.

Uma dos argumentos pertinentes apresentados – e que mais tarde ou mais cedo esperava ouvir – assenta no tamanho reduzido do mercado português. Ou seja, sendo Portugal um mercado irrelevante desde o ponto de vista de tamanho, esse mesmo facto atira-o para o fim da lista de prioridades de marcas internacionais como a Apple, tanto no que toca à rapidez de introdução de produtos dependentes de localização específica (todos os Macs menos o mini) como na qualidade do serviço técnico prestado e aparente desprezo acerca do mesmo.

Ora, a isto desde já pomposamente apelido de triste faduncho nacional. Aquela tão portuguesa resignação que nos faz obstinadamente atravessar crises e sofrimentos com um leve esgar de tristeza e um encolher de ombros, aceitando com estoicismo as agruras da vida.

Todos nós já vimos conversas como esta:

– Então Arnaldo estás melhor das cruzes/varizes/reumatismo/etc?

– Lá se vai andando. Uns dias melhorzinho, outros piorzinho. Mais ou menos. O que é que se há de fazer? Cá andamos enquanto Deus queira…

Às vezes me pergunto como nunca nos lembrámos de criar um Muro das Lamentações no nosso Portugal pequenino, se tanto nos lamentamos e tão pouco reclamamos. Sugiro desde já a substituição dos inúteis Livros de Reclamações (o livrinho amarelo) por uns bem mais adaptados Livros de Lamentações.

E quanto à Apple a programação cultural insiste em não desaparecer. O serviço é mau, paciência é porque somos pequenos. Não há Apple oficial, pois claro que não, somos pequenos. A Interlog demora eternidades numa reparação, então que raio haveria de fazer, criar um bom serviço técnico para um mercado tão pequeno?

Constatando um mero facto, somos pródigos em arranjar desculpas e justificações para um mau estado de coisas, reforçando a sua manutenção com tal postura. Tendo vivido um ano aqui ao lado – e não sendo eu particular fã de espanhóis e menos ainda de catalães – poucas vezes vi Portugal aparecer na imprensa espanhola. No entanto, ainda o mês passado (após o apagão em Barcelona e a revolta nas ruas), Portugal apareceu como um país de brandos costumes que aceita um mero atraso de 12 (doze) anos na abertura de uma estação de metro sem qualquer problema. De facto, para quê reclamar? Enquanto isso, Barcelona urrava por atenção para as suas decrépitas infraestruturas, com caçeroladas nas ruas e quando é caso disso ocupações pacíficas de aeroportos ou de túneis de comboio quando o serviço desce abaixo de níveis aceitáveis. É uma questão cultural.

E neste particular a postura espanhola bate a nossa aos pontos.

Mas voltando à Apple sem perder de vista a pista espanhola. Em Espanha há uma representação oficial da marca, fruto – entre vários motivos – do maior tamanho do mercado. E, acaso, tal facto impede os espanhóis de exigirem mais e melhor por parte da Apple?

Pelo menos os catalães não estão integralmente satisfeitos com o estado de coisas. Uns utilizadores mexeram-se para exigir o regresso da língua catalã ao OS X, aproveitando o facto de a empresa que realiza as traduções para espanhol, português e francês ser uma empresã catalã. Vai daí o Governo autónomo aproveitou a boleia, convidando (link em catalão) a empresa a prestar um pouco mais de atenção à língua catalã nos seus produtos. Ou seja, recomendando que o catalão enquanto língua fosse colocado ao nível do espanhol no que toca a tratamento de tradução. Sendo certo que tal conversa ocorreu demasiado tarde para ter algum efeito na tradução do Leopard, veremos de futuro o que a Apple fará.

Como detalhe, refira-se que a Catalunha tem apenas 7 milhões de habitantes, embora o seu PIB per capita seja bastante superior ao português. Embora seja um mercado pequeno, não tiveram vergonha nem pudor em fazer-se ouvir e reclamar o que entendem por justo ou relevante para os seus interesses. Por outras palavras, o Governo catalão exigiu que os produtos da Apple passem a ser traduzidos

Termino com a certeza de que a Apple já olha para Portugal com outros olhos. A criação da Apple Portugal é disso exemplo e a melhoria da tradução portuguesa do Leopard, uma certeza.

Mas enquanto optarmos pela resignação no que falta melhorar (time to market de novos produtos, preços e, sobretudo, serviço técnico), a Interlog vai sacudindo a água do capote. O que vale é que o povo é sereno.

Explore posts in the same categories: Uncategorized

12 comentários em “O triste faduncho nacional”

  1. ajax Says:

    É tudo muito bonito mas o que vale é o RWOT (Real World Out There). Nunca seria economicamente razoável não dedicar as linhas de montagem aos “teclados” que mais se vendem. Isto não é desculpar a Interlog, que tem imensas culpas pelos atrasos, é tão somente ser realista. Atrasos no hardware devido à “localização acontece com todas as marcas. Já a questão do software é mais simples e no entanto todos sabemos quantos meses leva a Microsoft a lançar as versões do seu software. Sobre o mercado Espanhol convém não esquecer que este não é apenas a meia centena de milhão que vive na Europa. Uma forma de tornar o mercado Português mais apetecível seria de uma vez por todas uniformizarmos muito coisa nos mercados de Portugal e Brasil, ficando a língua de parte porque essa não à volta a dar.😀

    Hoje não havia iMacs na FNAC. Novidades para breve?😀

    Ajax

  2. ajax Says:

    à -> há😀


  3. Não esquecer que a Catalunya conseguiu criar um TLD próprio, o .CAT.

  4. detig Says:

    @ajax,

    Se é o RWOT então por que motivo, aquando das recolhas de baterias se vivesses em Tonga podias efectuar a recolha via o site internacional da Apple (com eles a enviarem-te primeiro a bateria nova e tu a devolveres a velha) enquanto em Portugal nickles.

    Havia que falar com a Interlog mandar para eles primeiro a nossa bateria e esperar umas semanas até que eles processassem a coisa e enviassem uma nova bateria. Obviamente que só fiz a troca quando já estava em Espanha.

    É que não sei se sabes, mas Tonga é no meio do nada😀.

    @Pedro Cardozo

    Mais me ajudas.

  5. Mac2 Says:

    Só um à partezinho… Pois é, somos pequeninos. Curiosamente, a Bélgica, a Finlândia, a Dinamarca, a Suécia, a Suiça, a Noruega, a Irlanda e o Luxemburgo, tem menos população que Portugal e têm uma Apple Store.

    A verdade é que até agora (e por quanto tempo mais?) não conseguimos fazer valer os nossos argumentos para instalação do uma Apple Portugal e de uma assistência decente. Nisso, sim, temos sido pequeninos.

  6. ajax Says:

    detig,

    é assim porque existem leis que regem os mercados. Se no passado a Interlog conseguiu certos privilégios por não haver nem outros interessados nem tão pouco muitos clientes, tem todo o direito em beneficar deles. De qualquer forma tudo pode mudar em breve a avaliar pelo que tens escrito sobre a chegada da Apple oficial a Portugal.

    O exemplo que expões sobre uma simples troca de bateria tem logo uma falha à partida. Recentemente tive de trocar de bateria e não é verdade que és obrigado a devolver a bateria. É verdade que os casos relatados parecem apontar para práticas distintas nos vários pontos de assistência Apple. Cabe ao consumidor escolher aqueles que melhor o servem. No meu caso limitei-me a esperar que chegasse a nova bateria e a troca foi efectuada apenas no dia em que ela foi recebida pelos responsáveis pela assistência.

    Mac2,

    nenhum desses países tem uma Apple Store. Só existem Apple Stores nos EUA, UK, Canadá, Japão e Itália. Nem a França, que é muito maior que nós e onde há um “culto” Mac mais enraizado, tem uma Apple Store por mais pequena que seja. Se te referes a Apple Stores Online, nesse caso a culpa pode passar mais uma vez pelos “privilégios” desconhecidos detidos pela Interlog.

  7. João Filipe Says:

    Certo dia, há anos, encontrava-me no centro de Madrid e assisti a uma manifestação de trabalhadores (sindicalista). O que me suscitou a curiosidade foi o facto de observar lojas e estabelecimentos (inclusive o El Corte Inglès) fecharem à medida que a marcha progredia…
    Enfim, não somos exactamente brandos, mas sim assimétricos.

    O “serviço” prestado pela Interlog observa-se muito bem através da ausência (à excepção de um eventual descontozinho) da Apple na educação ao contrário de outros países onde a Apple investe fortemente por causa de uma coisa estranha que é designada por “futuro”.
    E no designado “Plano Tecnológico” onde pára a Apple?…

    Somos um mercado pequeno, de facto, demasiado pequeno para uma IBM, uma HP, uma Oracle, uma Sun, Cisco, Lever, Procter & Gamble, e porque não, também para um BCP, uma PT, uma Sonae, Jeronimo Martins ou até o Esporão?

    Há lugares de mercados “pequeninos” e de mercados pequenos, tudo depende da forma como as suas gentes se sentem confortáveis nos lugares que ocupem, como quem diz, enfiam o barrete… e cá para nós, o de campino (com o devido respeito) fica muito bem na estratégia observável da Interlog durante a última década.

  8. ajax Says:

    Espero que tenham reparado no meu comentário uns “comment” acima.

    “Hoje não havia iMacs na FNAC. Novidades para breve?”😉

    Ajax


  9. O problema de dimensão não se prende simplesmente com o número de pessoas mas sim e principalmente com o PIB Per Capita, ou melhor, Cliente, que cada país tem. No caso das grandes empresas indicadas, estás a falar de um PIB per CLiente elevado, pois não é a venda de computadores e impressoras que dá dinheiro a uma IBM, mas sim aos contratos de assistência e fornecimento que estes têm com as empresas. Quanbto à PT e o Esporão… o mercado delas está no Brasil e outras partes do mundo… é aí que estão a crescer!!!

    O problema da Apple está em que o mercado que pode ser atingido em Portugal é reduzidíssimo, já que nem o pib per capita ajuda aos clientes domésticos. Quanto ao entrar nas empresas, esqueçam… as grandes empresas estão tomadas pela MS de fio a pavio, (mesmo a Sap quando desenvolve software, e é americana, borrifa-se para o safari nas suas componentes web, exigindo um IE para funcionar correctamente)

    Por isso quando dizes que o problema não é da dimensão, não posso concordar… Mesmo esses grandes centros demográficos mencionados por todos, não possuem uma loja física onde te podes deslocar para pedir assistência, já que apesar de ser oficial, a Apple nesses países é gerida centralmente na grã Bretanha, servindo-se da Web e de distribuidores locais para fazer chegar as coisas aos locais (daí as páginas web serem logo actualizadas, quando quase ninguém sabe o que vai sair de novo… é tudo feito num sítio só). existem sim e apenas Lojas locais autónomas com níveis mais avançados de especialização… e aí, qualquer pessoa poderá criar uma loja em Lisboa e ir a Londres obter certificaçoes de reparação para prestar o mesmo nível de serviço em Portugal… agora para quem? para mim que tenho um mac ou meia dúzia de empresas que têm mais de 20 e que já têm acordos de manutenção com os seus revendedores locais??? Yeah… you betcha! tentem fazer um business plan para pedirem um financiamento e vemos do que estamos a falar!!!

  10. detig Says:

    ajax,

    Parece que os novos iMac já chegaram. Pessoalmente ainda só vi o de 24″ à venda, embora aparentemente no porto tenham sido vistos os de 20″ também.

    jc,

    Diria que a sede europeia está em Cork, Irlanda…http://www.apple.com/es/contact/. Até o VAT number é irlandês. Mas levantas boas questões.

  11. ajax Says:

    Joao Carvalhinho,

    a SAP americana? Que tiro no pé sobretudo porque és Europeu.😀


  12. pois… por acaso foi ao lado🙂


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: