Arquivo de Julho 2007

John Dvorak come o seu próprio chapéu

Julho 30, 2007

Tendo crescido a ler as guerras entre Tio Patinhas e Patacôncio, ficou-me gravado na memória o sem-número de vezes que o segundo foi obrigado a comer o seu chapéu.

John Dvorak, depois de anos a bater em tudo o que era produto informático ou semelhante que tivesse Apple inscrito ou uma maçã por logotipo, achou que estava na altura de mudar de opinião. Agora já acha que são porreirinhos. Até tem um no emprego e gosta. Mais, faz questão de recomendar aos amigos.

Pensei que mais depressa veria as galinhas terem dentes que Dvorak a dar o braço a torcer. Mas como diria o Prof. Marcelo, só os burros não mudam de opinião. A credibilidade é que foi pelo cano abaixo.

Do fecho do Btuga e afins

Julho 30, 2007

Durante a semana passada a PJ procedeu a uma operação de combate à pirataria em Portugal, apreendendo material informático relacionado com eventuais crimes de violação de direitos de autor e fechando de uma assentada os serviços/fóruns/sites Btuga e Zé Mula.

Vários têm sido os comentários em blogues criticando a operação policial ou apoiando acirradamente os serviços fechados. Certamente que se tratarão de comentários desinteressados e inocentes. Afinal, por esses canais de distribuição apenas se poderia encontrar software livre ou outro conteúdo não protegido por direitos de autor. Right?

Pessoalmente acho genial o comunicado de imprensa apresentado pelo responsável pelo Btuga, disponível no site Wintech.com.pt:

Hoje dia 24/07/2007 pelas 7:00 horas da manhã entraram 4 agentes da PJ armados e com crachás. Prontamente se identificaram e deixaram-me vestir acompanhado de um agente requerendo a minha presença, da minha irmã e da minha mãe na sala.

Primeiro foram investigar a arrecadação, depois os carros e finalmente o meu quarto e a casa.

Apreenderam 2 PC’s fixos, um portatil, 101 CD’s / DVD’s e 4 discos rigidos.

Ao mesmo tempo no datacenter tratavam de apreender os dois servidores do BTuga.

Apresentaram um mandato de busca e apreensão e fui considerado arguido com termo de identidade e residência.

Não sei em que consiste a queixa nem as provas.

Fui informado pelos agentes que posteriormente seria chamado às suas instalações e só aí seria confrontado com tudo.

Portanto, sou arguido e não sei do quê nem porquê…

Amanhã dia 25/07/2007 vou-me reunir com um advogado para ser melhor aconselhado dos meus direitos e procedimentos sendo a minha prioridade repôr o serviço o mais rapidamente possível.

Em principio terá algo a ver com direitos de autor sendo que nada em nenhum dos servidores viola qualquer lei.

Aqueles que não gostam do BTuga e os que gostam está na altura de nos juntarmos pois isto é um ataque aos P2P e à liberdade de tranferência de ficheiros na internet.

E querem fazer um exemplo do BTuga a nível nacional.

Aproveito para relembrar que nem um byte de informação ilegal passa pelos servidores e se olharmos para o caso dos newsgroups…

Há quanto tempo existem e nunca ninguém fez nada?

E são ficheiros ilegais presentes nos servidores dos ISP’s…

Martini

Analisando o mesmo, a quantidade de argoladas, desconhecimento legal e irresponsabilidade em tão poucas linhas é digna de fazer chorar as pedras da calçada.

1. Da incómoda visita da PJ às 7 da manhã

A lei portuguesa permite à PJ a realização de busca e apreensões nos domícilios desde que com mandato (ou mandado, falha-me sempre a expressão) e durante o dia. Por dia entende-se o período entre as 7 da manhã (tenho a certeza) e as 20 ou 22 horas (não estou seguro, já passaram uns anos desde que estudei isso). E portanto, para terem a certeza que podem fazer a busca inesperadamente é normal a mesma ser feita logo às 7 da manhã. Nada de anormal aqui. Também nada de anormal quanto à apreensão de material utilizado na prática dos alegados crimes.

2. Da constituição como arguido

Qualquer suspeito tem o direito de ser constituído arguído, pois tal condição processual dá-lhe algumas vantagens francamente importantes como é o caso de estar dispensado de dizer a verdade quando for interrogado, ao contrário do que acontecia se fosse ouvido como testemunha. Não era a primeira vez que a polícia fazia a brincadeira de ouvir alguém que pensa ser suspeito como testemunha para logo utilizar esses factos posteriormente contra essa pessoa. Às vezes passa, às vezes não. Nada de anormal aqui.

3. Da falta de informação sobre queixa, factos de que é acusado e provas

Não sei se deverei rir ou chorar quanto a estes comentários. Comecemos por uma análise jurídica, ainda que não seja um penalista ou tenha qualquer gosto pela matéria. Um processo criminal inicia-se com uma queixa ou denúncia. Procede-se à investigação sob o véu do segredo de justiça (bem ou mal…) e apenas aquando do proferimento do despacho de acusação (ou de arquivamento) é que é informado o arguido de todas as informações necessárias para a sua defesa. Ainda antes de se passar à fase de julgamento, e após ser proferido o despacho de acusação, pode o arguido requerer a abertura de instrução para re-verificar as provas apresentadas pelo Ministério Público. O segredo de justiça é removido nesta fase e segue-se (eventualmente) para julgamento.

Portanto, nesta fase, o responsável do Btuga não sabe nem tem de saber grande coisa. Nada de anormal aqui.

4. Da conversa com o advogado e eventual violação de direitos de autor

É inacreditável o desplante com que atiram abetardas pelo ar. O que o tal Martini Man deveria ter feito era *antes* de abrir o serviço ter falado com um advogado que lhe explicasse se, eventualmente, poderia vir a ter problemas no futuro. Mas ao melhor estilo tuga, achou preferível ir adiante sem se preocupar com o longo braço da lei.

E para quem não procurou atempadamente conselho legal e demonstra um desconhecimento tão gritante do processo penal português, vir dizer que não fez nada de ilegal, francamente é de ficar boquiaberto. A seguir só lhe faltava dizer que pode exercer medicina por ter lido umas páginas web de medicina.

Espero que vá é à procura de um bom advogado, pois bem precisa. Se há algo de anormal aqui é a irresponsabilidade do dito Martini Man.

5. Do exemplo a nível nacional

Quanto maior a subida, maior a queda. Convenhamos que manter um serviço como o Btuga nos tempos actuais, ainda que privado (primeira ironia…) e com um software pago (segunda ironia…). Tivesse ele limitado o serviço à partilha de ficheiros não protegidos por direitos de autor, ou abrangidos por licenças como a GPL ou a Creative Commons e nada disto lhe teria acontecido. Mas claro, dessa maneira o tráfico gerado pelo seu serviço seria infinitamente inferior ao que terá atingido com a disponibilização ilegal de software ou outros conteúdos. Mais uma vez, nada de anormal.

6. Dos queixumes contra newsgroups e ISPs

Se há princípio legal que parece não entrar correctamente na cabeça das pessoas é o princípio da igualdade. Este princípio tem duas vertentes (positiva e negativa) e uma limitação substancial: não vale para a prática de actos ilegais. Ou seja, é irrelevante para o autor de um crime que outrem tenha cometido idêntico crime e não tenha sido ainda (ou de todo) responsabilizado pelo facto ilícito.

Se ele acha que são crimes então faça o que lhe fizeram a ele: apresente queixa-crime (se cumprir as condições) ou uma simples denúncia à PJ. Once again, nada de anormal, excepto a candura do autor.

Conclusão

Pode ser que esta situação não dê em nada e que daqui a uns anos sejam todos absolvidos com pancadinhas nas costas. Pessoalmente, é me irrelevante o final da história para os protagonistas, mas aplaudo a forma rápida como a actuação foi tomada e a discussão que este assunto tem provocado na blogosfera, pese embora não acompanhe parte das opiniões veiculadas.

No final (depois das calendas gregas do julgamento e eventuais recursos) se confirmará se a actividade prosseguida por Btuga e Zé Mula é efectivamente ilegal ou não. Nos entrementes vou buscar as pipocas.

Por fim, é de realçar que a política preventiva da Techzone em não pactuar com a pirataria e purgar sistematicamente as threads de comentários e discussões sobre essa matéria, foi profícua a longo prazo. Ao fim de 7 anos, a TZ é um fórum de informática com mais de 60 mil utilizadores registados que cresceu sem precisar da muleta da piratira sobre o direito de autor alheio. E de caminho, evitou-se que tivesse sido agora fechado como foram os supra mencionados.

Fake Steve na brasa

Julho 19, 2007

Não é segredo para ninguém que Fake Steve tem o condão de pisar os calos a muita gente com os comentários que tem feito ao longo do último ano. Como com os autores de O meu pipi ou do Hi5Porcas, há meses que se discute a sua identidade. Será americano? Inglês? Editor da Wired? Espertalhaço? Personagem compósito?

Nos últimos dias o seu blog tem estado um pouco parado para o ritmo habitual. Apenas um ou dois posts por dia, ao invés da meia dúzia com que, por vezes, nos brinda.

Ontem ficámos a saber porquê. Aparentemente alguém andará a perseguir incessamente Fake Steve para descobrir a sua identidade. Será verdade? Ou tratar-se-á apenas de mais uma piada? Até a CNET reportou o acontecimento.

Pessoalmente acho que é verdade, tendo em conta o histerismo que se tem assistido quanto ao desconhecimento da sua identidade e as vantagens para o autor em manter o status quo.

O que me leva à pergunta subsequente, tema sobre o qual já queria ter escrito há alguns dias: qual a nacionalidade de Fake Steve?

Devido a uma série de provas circunstanciais estou convicto de duas coisas:

i) que é europeu (ou seja, britânico);

ii) que é um personagem compósito;

Começando pelo primeiro, os argumentos circunstanciais que posso apresentar em favor da minha teoria são simples.

a) Do humor britânico

Cada vez que vejo os múltiplos e sucessivos posts assassinos que vai publicando Fake Steve penso estar a ler o guião de um episódio de Monty Python, Blackadder ou, para os mais recentes, The Office. O humor sarcástico e sardónico que o caracteriza encaixa perfeitamente numa personalidade que tenha bebido durante a sua juventude da fonte do humor britânico. Há ali muito salero que não tem origem americana. Concedo que a ser americano Fake Steve, provavelmente viu e reviu Arrested Development onde se cultivava um humor corrosivamente sarcástico. Mas lá está, Arrested Development é das séries de comédia americanas mais britânica que conheço.

b) Dos erros geográficos europeus

Em pelo menos dois episódios de Arrested Development é feita uma piada geográfica sobre Portugal como se situando na América do Sul, gozando com o desconhecimento geográfico dos americanos. FS segue a mesma onda mas com uma particularidade. A piada é sempre com países europeus e essencialmente com trocas e baldrocas relacionadas com a Europa. Ora confunde expressões, línguas maternas ou localizações mas sempre, sempre com países europeus.

Ou seja, não mete Portugal na América do Sul, mas sim no Líbano, por exemplo. Ou fala de Tripolí como estando relacionada com a Itália ou a Sicília (piada muito, muito histórica, dado que a Itália de Mussolini ocupou a Líbia).

Só um europeu consegue fazer piadas ofensivas trocando o alemão por suíço (do jornal Spiegel Catalog) ou o francês pelo português. Ou saber expressões idiomáticas em latim, como o mea culpa.

Acresce que dos mails que troquei com FSJ (sim, um par, sobre a Apple Portugal) em que me agradeceu em portinhol (muy obrigado) e de alguns comentários que fez em português (bacalhau e aqui também) no blog, fiquei seguro que só poderia ser um europeu a responder-me.

Ou seja, com as constantes piadas geográficas centradas na Europa, Fake Steve demonstra uma excelente cultura geográfica…europeia. Parece-me excessivo que seja um americano de tal forma culto que conheça os meandros das relações internacionais europeias como Fake Steve aparenta. Recorde-se que o gag original era gozar com o alegado desconhecimento de geografia do verdadeiro Steve Jobs, por ter abandonado os estudos relativamente cedo.

Mais uma vez, humor tipicamente britânico.

c) Das piadas sobre jornais ingleses

Outra prova circunstancial da nacionalidade de Fake Steve é que parece estar sempre profundamente atento a tudo o que é inglês e, principalmente, a tudo o que é notícia em Inglaterra. A história do logo dos Jogos Olímpicos de 2012, da capa da britânica The Economist, ou mais recentemente do disco de Prince oferecido com o Daily Mail demonstram que está atento à realidade e à imprensa diária inglesa.

d) Ozymandias

Se dúvidas ainda houvessem, o post em que Fake Steve fala sobre Ozymandias mata a questão. Ozymandias é um poema de uma autora britânica (Percy Shelley) do Séc. XVII. Coincidentemente, é também um gag dos Monty Python (Flying Circus, Episódio 41).

Com todas estas provas circunstanciais, tenho pois que Fake Steve é um inglês. Até poderá viver nos EUA, mas claramente, de origem britânica. Nenhum americano citaria tal poema.

Passando agora à ideia de personagem compósita. Quanto a este facto é apenas uma ideia. Acho que aparecem demasiados posts por dia no FSJ para que seja apenas um autora. Ademais, há grandes alternâncias em posts arrasadores de gozo com outros que denotam grande profundidade de raciocínio, como os relacionados com a música.

Como referi, é apenas uma ideia. Acredito que o escritor final seja apenas um, ou dois no máximo. Mas penso que existem várias pessoas a preparar os textos do blog.

In a word: Newton

Julho 19, 2007

Cripticamente John Gruber colocou ontem online um post com essa simples palavra. Que quererá dizer?

O PDA Newton foi uma infeliz vítima da fúria de Steve Jobs quando em 1997 regressou à Apple,  não hesitando em matar um projecto caro ao seu antecessor Gil Amelio. Desde então alguns rumores que ciclicamente circulam pela Internet anunciam o seu renascimento qual D. Sebastião regressando a Portugal numa manhã de nevoeiro.

Até nos comentários em relação ao meu anterior post sobre os futuros iPod surgiu essa ideia.

Mas, afinal, que quererá dizer Gruber?

Sobre os próximos iPods: mais do mesmo ou iPhones sem chamadas?

Julho 15, 2007

John Gruber publicou anteontem um post explorando os dois caminhos que a Apple tem para os novos iPods que venham a substituir a actual 5ª geração, há já a algum tempo a pedir reforma. Por um lado pode limitar-se a actualizar os modelos actuais, mantendo o mesmo software que tão bem a tem servido nos últimos 6 anos. Por outro lado, pode migrar a linha iPod para um software assente em OS X como optou por fazer com o recente iPhone.

Gruber inclina-se para a segunda opção, pois para a gama iPod se manter actualizada à luz do novo paradigma de interface/usabilidade criado pelo aparecimento do iPhone, é necessário abandonar o paradigma anterior de software. Se há qualidade merecedora de enaltecimento na Apple é precisamente a capacidade de mudar de paradigma quando está no topo, facto visto, por exemplo, aquando da morte do iPod mini e a sua substituição pelo nano.

Portanto, para Gruber a questão essencial nem é tanto o software utilizado – dá de barato que será semelhante ao do iPhone – mas sim de saber se os novos iPods terão apenas a vertente de leitura de música ou se terão tudo que tem o iPhone menos a vertente telefónica.

Pessoalmente, penso que faz sentido acreditar numa transição a breve trecho dos iPods para leitores assentes numa qualquer versão do OS X. Já há algum tempo que é clara a opção da Apple por atingir novos mercados, utilizando uma versão do seu sistema operativo como cavalo de tróia. Basta olhar para AppleTV e o dito iPhone.

Acredito que numa primeira fase Jobs opte por segregar bem as marcas, limitando o iPod à música e vídeo, deixando as restantes capacidades para o iPhone. Não obstante, refere Gruber, até poderá ser do interesse da Apple lançar um iPod que faça tudo menos chamadas, ainda que canibalizando as vendas do iPhone. Questões contratuais com a AT&T à parte, o iPhone trás algo à Apple que o iPod nunca poderá: clientes amarrados por dois anos a um contrato e a pagar uma mensalidade de que a empresa de Cupertino também (alegadamente) beneficia. Já o iPod oferece uma boa receita à cabeça e depois, nada.

Comparativo de DevonThink, Journler e VoodooPad

Julho 12, 2007

O blog Freelance Samurai efectuou (já há algum tempo, mea culpa) um excelente comparativo em inglês de três aplicações dedicadas à produtividade:

DevonThink (versão Personal, $39.95);

Journler ("Grátis", pedindo o autor um donativo de $10 para uma utilização não profissional);

VoodooPad Lite (Grátis);

Embora pessoalmente eu utilize a primeira -sem grande profundidade, confesso- o autor do escrito inclina-se para a segunda, com alguns argumentos relevantes. Ficou a faltar na review uns screenshots das aplicações para o ramalhete estar completo.

Outra review comparativa de aplicações de produtividade (DevonThink, Kit, SOHONotes e Yojimbo) pode ser encontrada no blog Mac Law Students de Erik Schmidt.

Ensaio sobre a má qualidade da assistência técnica da Apple em Portugal

Julho 6, 2007

Andava para escrever este post há coisa de três meses, tendo preparado o primeiro draft no autocarro do aeroporto de Luton para o centro de Londres. Por motivos diversos fui adiando a coisa, mas hoje apetece-me discorrer à laia de ensaio sobre este tema: que fundamentos poderá ter a má qualidade da assistência técnica da Apple em Portugal?

Que a dita é má – comparando com os padrões de outros mercados onde existe uma representação oficial da Apple – não me parece que haja dúvida. Os motivos é que dão pano para mangas.

Penso que podemos agrupar os motivos em duas ordens de razão diversas: (i) a natureza jurídica da Interlog e a sua relação com a Apple, Inc.; (ii) a incompetência das pessoas à frente da mesma.

1. Da natureza jurídica da Interlog e a sua relação com a Apple, Inc.

A Interlog é actualmente o importador oficial dos produtos Apple para Portugal, tendo uma relação de exclusividade com a marca, semelhante à que é possível encontrar nos importadores das marcas de automóveis. Não há concorrência, distribuindo a Interlog para a generalidade das lojas que vendem em Portugal. No entanto, a Interlog não é *a* Apple, Inc. É uma empresa terceira que, por acaso, tem esse direito de distribuição para um determinado mercado. E é aqui que começa – a meu ver – o busílis da questão. Não só para a Apple, mas pela minha experiência na Unreal para todas as marcas de informática que têm importadores e não representação oficial.

a) a marca Apple não pertence à Interlog, mas sim à Apple Inc;

Em primeiro lugar, a fortuna a longo prazo da marca Apple é irrelevante para a Interlog. São um importador exclusivo, cujo contrato expirará mais cedo ou mais tarde. Pessoalmente, acredito que já não falte muito, especialmente depois de ter visto constituída a Apple Portugal em Maio e ouvir alguns zunzuns por aí. Portanto, para quê servir bem os clientes, sustentando o bom nome da marca, se a longo prazo isso é para nós (Interlog) irrelevante? Mais vale espremer bem a laranja enquanto pode dar sumo. E todos sabemos que quando um contrato destes está a expirar o distribuidor fará o possível para defender os seus interesses.

Ou seja, para a Interlog tanto se lhe dará como se lhe deu que a sua atitude de importador danifique ou não a marca Apple pelo simples motivo que esta não lhe pertence. Só dói à Apple e aos consumidores lesados.

Estou para ver se, apesar de tudo, no final a Apple não terá de pagar uma indemnização de clientela à própria Interlog. Seria de rir, mas já vi porcos mais gordos a voar.

b) não serem vendedores (excepto via Apple Store Online);

Em segundo lugar, a Interlog não é directamente vendedora. Certo, gere a Apple Store Online, mas nada mais. Não dá a cara. Não tem balcão. Não atura os clientes insatisfeitos aos berros. Isso fica para quem está a jusante, o retalhista que dá o corpinho ao manifesto na realidade pela marca.

Adoraria ver a reacção dos responsáveis da Interlog se tivessem a bater-lhes à porta em Alfragide clientes urrando por um serviço técnico decente como acontece nas lojas.

c) falta de concorrência para o exercício da garantia;

Em terceiro lugar, não é preciso ser-se doutorado em economia para saber que um mercado onde não há concorrência, enfim, dificilmente atingirá bons patamares de eficiência (para não ser mais cáustico). Ora, em Portugal para exercer o meu direito de garantia tenho de ir parar obrigatoriamente à Interlog para que esta efectue a reparação. Sendo certo que as reparações fáceis podem ser efectuadas pelos retalhistas, as reparações à séria terão de o ser na Interlog.

A título de exemplo, em Espanha, há diversos centros técnicos com competência para efectuar reparações complexas. Consequentemente, é muito mais fácil para o cliente encontrar um onde seja rapidamente (e bem!) atendido. Em Portugal, a Interlog pode dar-se ao luxo de prestar um mau serviço de pós-venda, pois os clientes não têm alternativa.

Não tem, pois, o incentivo da concorrência para ser eficiente, factor que adiante explorarei com maior cuidado.

No entanto, informo que quem tiver um problema no primeiro ano de garantia, poderá exercer o mesmo em qualquer centro técnico espanhol. Não é a solução ideal, mas, acreditem que é preferível a ficar dependente da Interlog.

d) eventual filtragem de queixas sobre os serviços prestados;

Em quarto lugar, imaginemos que o cliente insatisfeito quer reclamar com a má qualidade do serviço prestado. Que fará? Enviará uma carta/email para a Interlog. Naturalmente que a missiva ficará por aí (e já la vamos) e nunca a Apple saberá o que se passa, pois a informação é controlada pelo importador. Como é natural, o importador nunca passará esses dados sempre que o puder evitar.

Também é verdade que o português reclama pouco e mal. Bem que poderíamos aprender com os espanhóis nesse aspecto.

Sugiro pois que quando isso aconteça, as pessoas reclamem para a Interlog *e* para a Apple, Inc., para que esta saiba o que se passa. Para quem quiser, posso fornecer a morada (física) do departamento legal da Apple na Europa, situado algures em Paris. Esperemos que saibam inglês.

e) falta de investimento na qualificação do serviço pós-venda;

Last but not least, o quinto item deste ponto. Foi-me contado há umas semanas o porquê da má qualidade e lentidão do serviço técnico da Interlog. Não sei se é verdade, mas é certamente verosímil e é um segredo que tresanda.

Basicamente, a Interlog tem um centro técnico de nível 2 quando em Espanha qualquer retalhista com centro técnico incorporado (como aqui em Barcelona) facilmente tem um atendimento de nível 3 ou 4. Ou seja, o retalhista espanhol investiu em pessoal e maquinaria para efectuar reparações mecânicas e eléctricas de nível avançado aos seus clientes. Sublinho, uma mera lojeca aberta ao público.

Já o nosso importador oficial e exclusivo achou por bem ficar-se pelo nível 2 e mandar para fora as reparações mais complicadas. Diz que é uma espécie de outsorcing. Corte de custos à melhor maneira portuguesa. Cortar onde não se vê e onde não há concorrência. Assim a modos como o carpinteiro que utiliza desperdícios de madeira na parte interior do móvel, onde ninguém vai verificar.

Não me digam que o mercado de Barcelona, ainda para mais dividido por algumas lojas, tem mais volume que *todo* o mercado português.

A meu ver, esta limitação das reparações efectuadas em solo nacional contribui e de que maneira para os atrasos de meses na reparação de computadores. Sim, meses de espera para ferramentas de trabalho. Em Espanha a espera é de apenas alguns dias.

Agora comparem este quinto item com a), b) e c) e digam-me se a fotografia de conjunto não é lógica.

A Interlog não quis, não pôde ou não soube crescer e investir na prestação de bons serviços de garantia aos seus clientes. Mas aqui a culpa também é da Apple que, provavelmente, aquando da negociação do contrato de distribuição não exigiu um nível mais elevado. O que não invalida a esperteza tão saloia assente em vistas curtas da Interlog.

Este quinto item leva-nos directamente para a segunda ordem de razões.

2. Da incompetência dos responsáveis da Interlog

Sendo certo que parte do problema pode ser reconduzido às questões atrás levantadas, não nos podemos esquecer que a Interlog terá gerentes ou administradores os quais, em última análise, são quem toma as decisões que beneficiam ou prejudicam o cliente final. Desconheço totalmente o organigrama (organograma?) da Interlog e a distribuição de competências por quadros médios, mas a falta de investimento na qualidade da assistência técnica só pode ser assacada a quem manda, não a quem é mandado.

Além disso, para quem está de fora, há na Interlog uma cultura de total laissez faire e eventualmente desprezo pelo cliente final. 

O ponto e) supra também poderia constar aqui.

a) da inexistência de relatórios de reparação

Gostaria de saber quantos dos meus leitores obtiveram da Interlog um relatório – ainda que sumário – com os seguintes pontos:

i) problemas detectados;

ii) reparações efectuadas;

iii) tempo em que o bem esteve para reparação;

Os dois primeiros pontos são óbvios e corriqueiros nas reparações efectuadas noutras marcas, em Portugal ou Espanha. O que é lógico, pois só assim poderá um cliente legitimamente reclamar do serviço prestado. Já a Interlog opta por não o fazer. Isto não é uma questão de investimento no serviço, mas sim de competência de quem manda. De instalação de procedimentos para que se possa responsabilizar quem erra.

Numa sina tristemente portuguesa, a Interlog acha desnecessário facultar essa informação aos clientes. É natural, poderia ser utilizada contra ela e forçá-la a mudar os seus procedimentos.

O terceiro, aparentemente inócuo, é absolutamente fundamental para o prolongamento da garantia. É que de acordo com o Decreto-Lei n.º 67/2003, de 8 de Abril (não me lembro do artigo em concreto), a garantia extende-se pelo período em que o bem estiver para reparação. Como há reparações a demorar meses, o detalhe não é de somenos importância.

b) da não resposta a reclamações

A corriqueira falta de resposta da Interlog a reclamações é o pináculo do meu comentário sobre a cultura de laissez faire da empresa. Enviei uma reclamação há uns meses exigindo resposta por escrito para uma determinada morada. Nunca obtive resposta.

Não obstante os pontos que levantei sobre a minha reparação foram respondidos pela Interlog à FNAC quando esta a interpelou directamente a um nível bastante elevado (não eram técnicos…).

Mas resposta ao cliente final, nem vê-la. Para quê? Afinal de contas, poderia servir contra a Interlog…Se mandar uma missiva com papel timbrado do escritório não merece resposta, se calhar deveria eu ter intentado uma acção em tribunal com o mesmo texto. Aí talvez tivesse obtido resposta.

Mais uma vez, a responsabilidade é de quem manda, não de quem está abaixo.

3. Conclusão

Acredito que as pessoas da Interlog sejam, no fundo, todas óptimas pessoas. Acredito que façam o possível, mas, infelizmente, isso não é suficiente. O serviço prestado é mau e a culpa morre sempre solteira, ao melhor estilo latino.

Tenho pois que, com os dados por mim recolhidos nos últimos meses, os motivos acima postos explicam – pelo menos em parte – a péssima qualidade do serviço de assistência técnica fornecido pela Interlog.

Eventualmente, é bem provável que alguns dos fundamentos possam ser também aplicados a outros importadores de material informático.