Vender música sem DRM não vai resolver os problemas da Apple na Europa

O anúncio a semana passada de que a Apple iria passar a vender música do catálogo da EMI sem DRM fez criar a imagem de que os problemas na Europa daquela empresa estariam praticamente ultrapassados. A mim, não me parece.

Por um lado trata-se apenas do catálogo de uma grande editora (faltam as outras três) e a Apple continuará a vender as músicas desse catálogo com DRM ao preço habitual. Por outro lado, náo sabemos de momento se e quando serão vendidas músicas sem DRM na Europa. É natural que o mercado europeu também venha a ser abrangido, mas implicrá negociações país a país, como aquando do lançamento da iTunes Store em cada Estado membro da União Europeia.

Mas o óbice mais importante que tenho a apontar é a inutilidade da venda sem DRM no que toca ao problema de interoperabilidade. Ou seja, pensava-se (erradamente) que afastando o DRM FairPlay utilizado pela Apple nas faixas vendidas na iTunes iria permitir que estas fossem facilmente utilizadas noutros leitores de mp3 que não o iPod. Wrong.

Em primeiro lugar, a Apple optou por vender essas músicas sem DRM em versão AAC 256Kb o que significa a total inutilidade para leitores que apenas leiam mp3, wma e ogg vorbis. Mas aí poderemos dizer que a culpa não é da Apple, mas sim de quem desenhou esses leitores (os quais poderão, eventualmente, lançar um novo firmware para suportar AAC).

Em segundo lugar – e é o argumento fulcral – a Apple nada fez para abrir o ecossistema iTunes+iPod a outros leitores de mp3. E é desta falta de interoperabilidade que se queixam Noruega, França e (eventualmente) a Comissão Europeia.

É verdade que agora os consumidores poderão comprar a música e utilizá-la onde quiserem. Mas não é menos verdade que o iTunes (e a sua loja) continuarão a funcionar apenas com o iPod. Não há (nem acredito que venha a haver) suporte para outros leitores dentro do software da Apple.

O que não seria grande problema caso os ficheiros comprados na iTunes fossem mp3, tivessem nomes de ficheiros legíveis por pessoas e/ou tags identificáveis por programas como o Windows Media Player ou o software utilizado pela Creative para gerir músicas.

Não digo que estes problemas não sejam ultrapassáveis por pessoas decididas ou hackers engenhosos. O ponto não é esse. O ponto é que para o consumidor habitual, não vai ser uma experiência fácil e lógica ligar o Zune/Zen/Whatever ao computador e passar a música comprada no iTunes sem DRM para o seu leitor.

Porquê? Porque o iTunes está-se nas tintas para esse leitor; porque para identificar manualmente os ficheiros comprados (e inteligentemente identificados como XuIvZZZtec.aac) vai passar um mau bocado; porque o WMP não conseguirá ler as tags das músicas compradas na iTunes.

Portanto, quando a poeira assentar e na Europa quem de direito reparar que o anúncio da semana passada é pouco mais do que areia para os olhos e uma vã tentativa de afastar acusações de monopólio de cima das costas.

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