O acordo Apple-EMI para a venda de música sem DRM

Nos últimos dias tenho estado a pensar sobre a decisão da Apple e da EMI de venderem música no iTunes com qualidade superior e sem os horríveis DRM.

Até ler esta opinião do The Inquirer estava a inclinar-me no sentido da generalidade dos comentários, ou seja, que era uma maravilha. Basicamente, o Inquirer argumenta que estamos a ser comidos. E com uma certa razão, estão a dar-nos por 30% mais aquilo que sempre deveríamos ter tido: música de melhor qualidade e sem DRM. E ainda agradecemos por isso.

Hoje, inclino-me para a opinião do The Inquirer por um simples motivo: preço. Ou melhor o seu aumento em 30%.

Depois de ler a transcrição no Apple Insider do Q&A com Steve Jobs e Eric Nicoli fiquei totalmente convencido da hipocrisia da história, do calculismo do timing e do grau de abertura.

Vejamos alguns excertos:

“Q: I take it then that you are going to advocate taking the DRM off of the videos you sell on iTunes. Any particular [inaudible] you could do that with the Disney company?
A: You know, video, uh… I knew I’d get that question today. Video is pretty different than music right now because the video industry does not distribute 90 percent of their content DRM free; never has, and so I think they are in a pretty different situation and so I wouldn’t hold the two in parallel at all.”

Ou seja, na realidade a Apple não é contrária à existência de DRM. É sim contrária à sua utilização no mercado musical. Porquê? Porque por um lado tem o mercado de música online perfeitamente consolidado com o binómio iTunes+iPod. Por outro, no cenário de video online a sua posição não é tão forte. E por fim, foi encostada à parede pelas diversas autoridades nacionais europeias com voto na matéria. E aí foram inteligentes, aceitaram mudar as regras do jogo apenas o estritamente suficiente para sair do ponto de mira. Baralhou toda a gente e quem decide vai demorar até perceber a jogada.

Daqui por uns anos teremos idêntica guerra no que toca aos videos. Vai demorar é tempo até a Comissão Europeia ou as ditas autoridades nacionais se lembrarem desse mercado.

Outra prova que a Apple não é em realidade contrária aos DRM é a castração que impôs ao AppleTV ou ao iPod no que toca a codecs utilizáveis.

Ou seja, onde a batalha ainda não está ganha, manter-se-á a mesma táctica: DRM e circuito fechado entre iTunes-iPod-AppleTV.

E quando for obrigada a abrir a mão, a Apple far-nos-á pagar por isso. Mais 30%.

Voltemos à questão preço:

“Q: What’s the point of DRM on 79 pence tracks? If it doesn’t work, why not remove it completely?
A: Steve: For those customers that are very price sensitive, we don’t want to raise prices on anybody. We really believe in continuing with what we started and if people want to continue to pay 79 pence for their tracks, and they’re perfectly happy with the way they are, we don’t want to tell them they have to pay more. We want to offer them more value for a little more money and give them the choice. But we don’t want to say that we’re taking away something that you’ve known and loved and feel comfortable buying. We want to entice them into buying something … a little more. And they get to make the choice, not us.”

“Q: I’m wondering, the 20 percent increase in price — How you can account for that because obviously compression… you’re using the same machines to compress [inaudible] I take it… so the sample doesn’t take that much more time to increase. So how do you account for a 20 percent [nota: não são 20% de aumento, mas sim 30%] increase in price?
A: Steve: Well, first of all, we’re not increasing the price by 20 percent because you can still buy exactly the same product at the same price as yesterday. So what we’re doing is adding another product that is priced higher and offers more features. And the features that it offers is higher sound quality and it offers hassle-free interoperability. And if you think those are worth it, you can pay the extra 20 pence and, if you don’t, you don’t have to pay the extra 20 pence. So it’s not a price increase. It’s a second product that you get to choose to buy or not.”
Wrong Steve. É exactamente a mesma música, a mesma canção. Não seria mais simples vender toda a música da EMI sem DRM a 79 cêntimos? Para que necessitamos da tal “opção”? Para que a Apple e a EMI tenham a “opção” de cobrarem mais pelo mesmíssimo produto.

Ora, debaixo da poeira da falsa “opção”, que na realidade não existe pois qualquer ser inteligente irá para a melhor qualidade e ausência de DRM, é nos imposto um aumento de 30%. Assim, se tivessem feito desaparecer a música com DRM (que seria o movimento lógico) ficaria a nú aquilo que é um verdadeiro aumento de 30% no preço da música.

E o que justifica este aumento? Os custos de distribuição online baixaram nos últimos 5 anos. Não está a ser oferecida nova música e o aumento de qualidade era algo perfeitamente necessário.

E como diz o Inquirer, para termos o que já era nosso.

Mas nem tudo são críticas. Há também alguns elogios sérios a fazer.
É um primeiro passo muito importante no sentido de dar aos consumidores o que querem: música online, sem chatices e a preços ainda razoáveis.

E embora discorde do esquema de preços, elogio a possibilidade de se fazer upgrade à música comprada e, principalmente, à manutenção dos albuns com o mesmo preço.

Há um motivo para esta distorção no preço dos albuns. É que com o iTunes tinha ficado a nú o desprezo dos consumidores por comprarem obrigatoriamente 10-12 músicas quando só lhes gostava uma ou duas. Daí terem optado por manter o preço dos álbuns e dourar a pílula.

Ora, se unificaram o “produto” nos álbuns, não o poderiam ter feito nos singles? Onde está agora o argumento da “escolha” ou do “produto diferente”?

E para quando o video sem DRM?

Ficam estas interrogações e a certeza que a mudança de estratégia não foi feita a pensar nos consumidores. Somos meros danos colaterais nesta história.

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